Música ambiente (ambient music)

A música ambiente (ambient music) é um termo dado por Brian Eno nos anos 70. Nas notas do seu disco Music for Airports (Música para Aeroportos), de 1978, Eno explica os princípios da ambient music:

“O conceito de música concebida especificamente como um elemento de fundo (background) no ambiente foi descoberto pela empresa Muzak Inc. nos anos 50, e se tornou conhecido genericamente pelo termo “Muzak”. As conotações que esse termo carrega estão relacionadas ao tipo de material que a Muzak Inc. produz – canções conhecidas arranjadas e orquestradas de forma rasa e funcional. Com efeito, isso levou ouvintes (e compositores) mais críticos a desconsiderar totalmente o conceito de música ambiental como algo a ser levado a sério.

Nos últimos três anos tenho me interessado pelo uso de música como ambiance, e passei a acreditar que é possível produzir material musical de qualidade. Para deixar claro a distinção entre meus experimentos nessa área e os produtos oriundos de fabricantes de música enlatada, comecei a usar o termo “Ambient Music”.

Ambiance é uma atmosfera, ou uma influência circundante (surrounding influence): um tom (matiz). Minha intenção é produzir peças de música originais, primariamente (mas não exclusivamente) para eventos e situações específicos com o intuito de construir um pequeno mas versátil catálogo de música ambiental que se encaixa em diversos estados de espírito e atmosferas.

Enquanto as empresas de música enlatada existentes atuam a partir do princípio de regularizar ambientes cobrindo suas peculiaridades acústica e de atmosfera, a Ambient Music procura realçar essas peculiaridades. Enquanto a música de fundo (background music) convencional é produzida retirando-se todo sentido de dúvida e incerteza (e portanto todo o interesse genuíno) da música, a Ambient Music mantém essas qualidades. E, enquanto a intenção dessa música de fundo é “animar” (brighten) o ambiente com a adição de um estímulo (e assim supostamente aliviar o tédio de tarefas rotineiras e nivelando os ‘ups’ e ‘downs’ dos ritmos do corpo), a Ambient Music é feita para induzir calma e um espaço para reflexão.

A Ambient Music deve poder acomodar vários níveis de atenção de escuta sem forçar um em particular; ela deve ser tanto “ignorável” quanto interessante.”

INFLUÊNCIAS

Nunca é fácil determinar as influências no surgimento de uma expressão artística. Considero aqui apenas 5 fontes de inspiração no surgimento da música ambiente na década de 1970.

a) Futurismo

“A vida antiga foi toda silêncio. No século dezenove, com a invenção das máquinas, nasce o Ruído. Hoje, o Ruído triunfa e domina soberano sobre a sensibilidade dos homens. Por muitos séculos a vida se desenvolveu em silêncio, ou, no melhor dos casos, em sordina. Os ruídos mais fortes que interrompiam este silêncio não eram nem intensos, nem prolongados, nem variados. Pois que, se negligenciarmos os excepcionais movimentos telúricos, os furacões, as tempestades, as avalanches e as cascatas, a natureza é silenciosa”. (Russolo, “A Arte dos Ruídos”, 1913).

Na foto, Russolo com seus emissores de ruído (intonarumori) em 1919.

Luigi Russolo é visto como percursor da ambient music, música eletrônica e noise music ao propor uma noção de música mais inclusiva.

Clique aqui para baixar seu livro Arte do Ruído (em inglês).

Aqui vai um vídeo para se ter uma ideia de como esses instrumentos provavelmente soavam:

b) Musique concrète
Vídeo sobre fita magnética e possibilidades de manipulação do som:

Valse, parte de Symphonie pour un homme seul (Sinfonia para um homem só), de Pierre Schaeffer e Pierre Henry. Composta em 1949-50, um marco da música concreta.

c) John Cage

John Cage é sem dúvida um dos compositores mais influentes do século XX.

Williams Mix (1951-53) é o resultado da interpolação de 8 fitas magnéticas reproduzidas independentemente. O conteúdo das fitas foi grafado por Louis and Bebe Barron. As interpolações foram organizadas de acordo com métodos aleatórios sugeridos pelo Livro da Mutações I Ching.

A ideia de que a arte é mais uma questão de contexto e conceito do que de material e convenção foi um dos temas principais da obra de Marcel Duchamp, que exerceu forte influência no conceito de música proposto por John Cage.

Arte criada a partir de objetos encontrados no dia a dia. Os ready-mades de Duchamp foram criados entre 1913 e 1921. Ao serem exibidos em museus, eles causam um estranhamento e uma reflexão sobre distinções entre arte e não arte. De forma semelhante, a obra de Cage pode ser lida e ouvida como uma tentativa de expandir os limites do musical através do uso de sons cotidianos. A obra ao lado, Roue de bicyclette (Roda de Bicicleta), de 1913, pode ser vista no Museu de Arte Moderna de Nova York.

d) Minimalismo

Em 1962 os compositores Morton Subotnick e Ramon Sender criaram o San Francisco Tape Music Center Centro de Música para Fita de São Francisco). Entre os compositores envolvidos estavam Terry Riley, Pauline Oliveros e Steve Reich. 

Steve Reich fala sobre It’s Gonna Rain (1965), um dos marcos do minimalismo. Da fita magnética, ele pensou em fazer música minimalista para concertos com músicos, ao vivo.

TESTE

Gravador usado por Reich em 1965

Terry Riley, outro nome importante no minimalismo, compôs em 1965 Bird of Paradise. A peça tem 12 minutos. Abaixo, a parte 1.

e) Sintetizadores

A história dos sintetizadores começa já no final do século XIX. Em 1896/96, anos antes da primeira exibição pública de um filme pelos irmãos Lumiére, Thaddeus Cahill criou um instrumento elétrico capaz de criar vários timbres.

Primeiro sintetizador, criado por Cahill no final do século XIX.

Na década de 1940, o transistor (semicondutor que possibilita amplificar e mudar sinais eletrônicos e energia elétrica) permitiu a criação de instrumentos elétricos menores. Em 1967, Roberto Moog denominou “sintetizadores” seus instrumentos construídos com oscilador de voltagem, módulo amplificador e teclado.

Moog e Minimoog

Aqui se pode ter uma ideia da sonoridade do instrumento:

Paralelamente, o engenheiro Donald Buchla construiu instrumentos elétricos em colaboração com compositores experimentais em São Francisco.

Características composicionais gerais da ambient music:

  • circularidade harmônica (pouca preocupação em criar pontos de tensão e repouso como na música tonal convencional)
  • repetição de fragmentos rítmicos e/ou melódicos
  • uso extensivo de drone (som contínuo e estático, geralmente na região grave)
  • uso de efeitos sonoros diretamente ligados a espacialidade, em especial:
  1. reverb
  2. delay

RAMIFICAÇÕES: SUB-ESTILOS

a) Organic Ambient Music

Brian Eno é um dos representantes da organic ambient music, que faz uso de sons instrumentais gravados e som gerados por sintetizadores. O álbum fundamental, que lançou o termo “ambient music” é “Music for Airports” de 1978.

Antes de Music for Airports, Eno lançou Discreet Music em 1975.

b) Dark Ambient Music

Lull – Like a Slow River (2008)

c) Space Music

Space music se popularizou como trilha sonora de filmes e programas de TV/Radio de ficção científica. De fato, muito do que se enquadra como ‘space music’ já existia quando Eno criou o termo ambient music. Por isso existe certo anacronismo em classificar space music como ambient music.

Em 1956, a trilha sonora do filme The Forbidden Planet incorporava a sonoridade “espacial” até hoje associada com space music.

O album Zeit (1972) do grupo alemão Tangerine Dream é uma música atmosférica chamada pelo líder da banda Edgar Froese de ‘música cósmica.’

Outro exemplo é a trilha de Blade Runner (1982), composta pelo compositor grego Vangelis (Evangelos Odysseas Papathanassiou).

O Yuki Conjugate – Equator (1994)

d) Ambient Industrial

Deutsch Nepal – Benevolence (1993)

e) Ambient Techno

Juno Reactor – Inside the Reactor (2011)

e.1) Ambient Dub

e.2) Breakbeat Ambient

Autechre – Incunabula (1993)

e.3) Ambient House

Biosphere – Microgravity (1991)

f) Nature Ambient

Controlled Bleeding – The Poisoner (1997)

Chris Watson & Marcus D

Essas categorias são flexíveis. Como qualquer outro termo usado para agrupas tendências e modos de se fazer arte, são dados a posteriori e não servem como “modelos” seguidos por compositores. Como o termo ‘ambient music’ acabou se expandindo para as mais diversas vertentes de músicas relativamente estáticas que criam uma certa ‘atmosfera,’ é importante notar que compositores transitam entre os diversos sub-estilos.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s